Irineu andava se engraçando com Anita. Claudiney já tinha percebido e ficava puto toda vez que "o filha da puta" passava na mesa da gata e fazia uma brincadeira. Ficava mais puto ainda quando ela ria. Já tinha falado uma vez com a tia Mirtes sobre Anita. Com a mãe não. Dona Sonia morria de ciúmes do filho. A velha não tinha família e depois da morte do seu Osmar se agarrou à Claudiney como um náufrago se agarra a um tronco. A tia incentivava o sobrinho. Achava que ele “precisava arranjar uma companheira”.
Anita era morena. Pintava o cabelo com um louro platinado “igual da Marlim”. Era educada e atenciosa com todos, mas Claudy achava que com ele era diferente. Ela sempre perguntava se “não iria procurar uma namorada” e ele “na hora certa Aní. Na hora certa...”.
Seu Valdemar “com V por que com W é Ualdemar” era um dos Dois Irmãos do escritório. O outro, Vander, estava afastado com problema no coração. Duas safenas. O Tiozinho, como era carinhosamente tratado por seus funcionários, não gostava de namoros entre seus subordinados. Dizia que “isso é passível de demissão. Demissão!” Era rigorosíssimo quanto aos horários de entrada e saída da firma. Chegou a demitir o Gouveia do almoxarife por causa de 20 minutos de atraso. Dois dias depois, chamou-o de volta. O coroa tinha coração mole. Anita trabalhava diretamente com o Tiozinho e estava sempre sob a vista do chefe. Impossível qualquer aproximação. Para Claudiney, a sexta na Pizzaria seria a data perfeita para se encontrar com Aní fora do ambiente de trabalho e ainda por cima numa posição privilegiada: o artista da noite.
O LONDRIX 2008 – Festival Literário de Londrina reúne importantes nomes da literatura brasileira para discutir e pensar os rumos da literatura feita hoje no Brasil, seus impasses e peculiaridades em toda a sua diversidade de experiências.
São seis dias de debates, palestras, leituras, shows e oficinas abordando assuntos pontuais e controversos. Nessa edição do Festival jovens escritores brasileiros falam sobre a opção pela literatura e relatam suas experiências com a escrita. Uma reflexão sobre as relações entre quadrinhos e formas literárias também será um dos temas das mesas. Outro tema proposto será o imaginário de cidade, particularmente Londrina, como inspiração poética. Entre os participantes estão nomes de destaque no cenário atual como João Gilberto Noll, Domingos Pellegrini, Miguel Sanches Neto, João Filho, Lourenço Mutarelli, Caco Galhardo, Fabrício Corsaletti, Mário Bortolotto, Fernando Koproski, Paulo Scott, Hélio Leites, Índigo, Ivan Justen Santana, Eloyr Pacheco, Mirian Paglia Costa, Maria Regina Fedri, Neuza Pinheiro, entre outros.
Contamos com dezenas de lançamentos de livros, revistas e CDs, além de shows com artistas que integram a literatura em seu trabalho musical como Bonus Trash, Ceumar, Benditos Energúmenos, A Barca, A Lei, Décio Caetano, Mário Bortolotto & Fábio Brum,
Rogéria Holtz e Renata Mattar.
Nesta festa literária a Feira de Livros vai abrir espaço para editora de pequeno e médio porte. Além das performances diárias de Hélio Leites, as revistas independentes também marcam presença, com lançamentos do novo número da Coyote. A literatura infantil de infanto-juvenil terá seu espaço próprio, um lugar onde pais e filhos terão a oportunidade de entrar em contato com o mundo mágico da literatura através
de "contação" de histórias, shows, contato com autores e vivências lúdicas.
Após esses seis dias o LONDRIX continua com oficinas até dezembro e ainda promove encontros entre
escritores e a comunidade, projeto que foi desenvolvido durante todo o ano de 2008.
Tem umas narrações do próprio kerouac e muito jazz. Baixem!!!
Track List
1.Beat Generation - [Jack Kerouac] 2.Gasser - [Roy Eldridge] 3.Real Crazy Cool - [Big Jay McNeely] 4.Hey! Ba-Ba-Re-Bop - [Lionel Hampton] 5.In a Little Spanish Town - [Lester Young] 6.Fantasy: The Early History of Bop [Section 1] - [Jack Kerouac] 7.Salt Peanuts - [Dizzy Gillespie] 8.Scrapple from the Apple - [Charlie Parker] 9.Fantasy: The Early History of Bop [Section 2] - [Jack Kerouac] 10.Half Nelson - [Miles Davis] 11.Sorry, Wrong Rhumba - [George Shearing] 12.Fantasy: The Early History of Bop [Section 3] - [Jack Kerouac] 13.Slim's Jam - [Slim Gaillard] 14.Fantasy: The Early History of Bop [Section 4] - [Jack Kerouac] 15.I Only Have Eyes for You - [Billy Eckstine] 16.Hunt - [Dexter Gordon, Wardell Gray] 17.Fantasy: The Early History of Bop [Section 5] - [Jack Kerouac] 18.Hackensack - [Thelonious Monk] 19.Subconscious-Lee - [Lennie Tristano] 20.Stella by Starlight - [Stan Getz]
este é um conto que comecei a escrever no começo do ano. já postei algumas partes por aqui, mas a coisa ficou maior que imaginava. então violão, vou postar os antigos também para não perder o fio da meada.
o nome dele é claudiney.
o pai queria cláudio, a mãe queria ney. estava feita a bosta! com y mesmo.
dona sônia dizia que era mais chique.
odiava seu nome. a anita secretária o chamava de claudy. gostava da anita. gostava de claudy.
infância normal com direito a pipa, peão e muito futebol. se orgulhava de pertencer a geração do tele-jogo. foi um craque no paredão...
se tornou corintiano na invasão de 76. foi com o pai, seu osmar, ao maracanã. chorou na classificação e aí não tinha mais jeito. gambá até a morte.
com muito custo, conseguiu terminar um profissionalizante. virou contador. fez curso de computação e era expert em DOS. quando apareceu o windows 95 profetizou:
– não vai pegar.
por intermédio de um amigo de seu osmar, conseguiu um emprego no escritório “dois irmãos – o melhor da região”. perto da praça da sé.
37 anos, solteiro, morando com a mãe.
vida pacata, fazendo contas, fechando livros-caixa e assim por diante...
perdera o pai em 96. vinte anos depois da invasão. no mesmo dia.
queria inovar, sei lá.... afinal, a vida não devia ser só isso.
juntou uma grana e pagou algumas aulas de violão. paixão antiga. sempre quis tocar.
depois de um tempo percebeu que levava jeito pra coisa. resolveu investir. foi até a banca e comprou todas as revistas de música que encontrou. sabe essas que publicam a letra com os acordes em cima? então... entendeu o raciocínio e mandou ver.
logo tinha um repertório de 30 canções. aprendeu até o solo de “aquarela” do toquinho. sentia-se seguro quando estava tocando. gostava do resultado. a mãe já tinha elogiado algumas vezes. a tia mirtes também. a prova de fogo foi o aniversário do cabeça. depois de duas doses de conhaque e uma porrada de cerveja, criou coragem. tirou o violão da capa, passou pelo afinador eletrônico (investiu mesmo) e tascou “óculos” dos paralamas.
nos primeiros compassos, silêncio.
insegurança.
não desistiu. no primeiro yo yo yo a samanta cabeleireira começou a cantar. no segundo verso tinha mais um povo. no refrão a galera veio abaixo. foi embora feliz
– por que você não olha pra mim uoô...
chegou em casa e foi para o quarto. olhou para o velho pôster da som 3 do queen e pensou que tudo aquilo era pequeno para ele. achava que tinha talento. talento. era preciso mostrar. todo artista tem que ir onde o povo está. se conseguisse conciliar a carreira artística com o emprego seria ótimo. foi à luta. um amigo do escritório indicou uma pizzaria que tinha música ao vivo. pizzaria guanabara. pensouque guanabara não era nome de pizzaria. mas, vamos lá... fredie mercury também cantou em muita espelunca. criou coragem, telefonou e pediu pra falar com o seu dirceu, o dono.
- alô, seu dirceu?
- sim?
- meu nome é claudiney e queria uma oportunidade de mostrar meu trabalho.
- pizza de alho?
-trabalho!!!
-ah, mas não estamos contratando
-sou músico.
-ah, músico...
-é.
- e toca o que?
- violão. um pouquinho de tudo...
-toca waldick?
-o que?
-soriano?
-posso aprender...
- me dá teu telefone. quem toca aqui é o paulinho mato grosso, o dia que ele não puder...
-muito obrigado seu dirceu, anota aí...
agora era oficialmente claudy: voz e violão
*******************
- alô?
- alô?
- o claudiney, por favor?
- ele.
- ô claudiney, é o dirceu da pizzaria.
- oi seu dirceu, tudo em ordem?
- como é que está sua agenda prá essa sexta?
- essa agora?
- é...
- dexô vê...
- o paulinho não vai poder tocar. vai prá cuiabá. parece que morreu a vó, a tia, sei lá...
- posso sim.
- olha, mas não tem fixo. só o couvert artistico. tudo bem?
- claro. que horas começo.
- água e comida por conta da casa. álcool é por sua conta.
- que horas começo seu dirceu?
- e tem que trazer equipamento também. a casa não fornece.
- que horas chego aí?
- e mais uma coisa...
- que horas?
- tem que tocar três horas com dois intervalos de dez minutos.
- sete horas eu tô aí.
- até sexta.
- até.
*******************
Puta que pariu!! O Primeiro show!! O primeiro show!! O primeiro passo de uma longa trajetória de sucesso.
“Sabe Jô, eu sou o tipo do cara que...”
“Caralho, eu sou o tipo do cara que o quê? Não fiz outra coisa nos últimos anos que não seja trabalhar naquela porra de escritório”.
“Sabe Jô, eu sou o tipo do cara que fecha um IRPJ que é uma beleza”.
“Sabe Jô, eu sou o tipo do cara que sabe como autenticar um documento”.
“Sabe Jô, eu sou o tipo do cara que sabe muito bem reconhecer uma assinatura”.
“Sabe Jô, eu sou o tipo do cara que não é merda nenhuma”.
Tranqüilizou-se quando pensou que estava apenas começando sua carreira. “Até chegar no Jô, vou ter muitas histórias pra contar. Também já vou ter passado por muitos programas e estarei calejado. Antes do Jô, quero tirar o chapéu no Raul Gil. Mamãe adora Raul Gil”.
Mas antes Claudy tinha que preparar o repertório para o grande dia. O que tocar? Churrasco com amigos era uma coisa. Quando esquecia a letra sempre tinha um bebum para lembrar. Mas e profissionalmente? Como ia ser se esquecesse? Caralho! Problema a vista. Acendeu um cigarro. Achava que ajudava a pensar melhor. Não fumava muito, mas nos momentos de angústia funcionava como uma bengala. Iria conversar com o Irineu na segunda, o chegado que tinha indicado a pizzaria. Se indicou é or que já deve ter ido, oras bolas. Claudiney esperimentava sua primeira crise existencial como músico. “E se não gostarem do repertório? Bobagem, até o Ruizão no niver do Cabeça tinha gostado. Ele que é o maior xarope pra música cantou o refrão de Sonífera Ilha. Disse que estava legal e tudo...”
Segunda foi de ansiedade no escritório. Estava perdido, insegurança braba. Medo de não agradar, que não gostassem da sua voz, das músicas... Estava criando coragem prá falar com o Irineu.
Quando viu Irineu no café, foi.
- Fala Irina?
- Fala Claudiney, o homem que mais trabalha no escritório.
- Você já viu o Mato Grosso?
- Que?
- O Paulinho Matogrosso?
- Ahhh, o cantor!!
- Isso!!
- Que é que tem?
- Você já assistiu?
- Na Pizzaria?
- É Irineu, na pizzaria, na pizzaria... você já viu?
- Claro que já!
- E?
- E o que?
- Ele é bom?
- Claro!
- Bom como?
- Como assim?
- Bom como Irineu, bom como... toca bem, canta bem???
- é...
- E só isso????
- A Claudiney, sei lá porra. Ele é eclético...
- Eclético??
- É, caralho, eclético!!
- Como assim?
- Ele agrada todo mundo porra!! É eclético!! Agora dá licença que tenho mais o que fazer!!
Eclético... Tá aí. Agradar todo mundo. É esse o segredo.
Já vi muita gente perguntando por que a cultura de Londrina é tão forte e gera tanta gente bacana. Não só para mim, mas para amigos que trabalham em São Paulo e no Rio. Particularmente fui um privilegiado, pois fiz parte de uma geração da cidade que contou com Rodrigo Garcia Lopes, Mário Bortolotto, Mauricio de Arruda Mendonça, Paulo de Moraes, Patrícia Selonk, Bernardo Pellegrini... Isso prá não falar da música, artes plásticas, design e otras cositas ...Falo somente do período que vivi por lá, de 1987 a 2003 que foi quando desembarquei por a cá, acerca de San Pablo. A primeira coisa que percebo quando olho para aquela época é que a formação cultural que tivemos em Londrix foi diferente. Para gente o maior exemplo de projeção vinha de pessoas como Arrigo e Paulinho Barnabé (abri uns três ou quatro shows da Patife – inclusive mr Paulo gravou percussão num cd que fiz com uma banda) e Itamar Assumpção que por lá baixou fazendo teatro. A história do Nego Dito é por que ele saiu da casa da diretora do grupo com um toca fitas emprestado e a polícia prendeu o cara achando que fosse roubo... Neusa Pinheiro, Robson Borba, e principalmente pelo cachorro louco do Paulo Leminski, o bandido que sabia latin... Não eram caras que estavam com a cara no Faustão, na banheira do Gugu, no sofá da Hebe, conversando com o Amaury,tirando o chapéu no Raul Gil, polemizando na Luciana Gimenez e tal e cousa e cousa e tal. Foi uma turma que quando aportou por a cá foi logo chamada de vanguarda. Os estudos que Arrigo desenvolvia com dodecafonismo na época do Clara Crocodilo rendeu frutos. Para se ter uma idéia meu amigo Guto Caminhoto estava compondo em quarto de tom. E olha que isso já faz um tempo... E Leminski... todos éramos malucos por ele.
Óbvio que não é só isso, mas essas pessoas mostraram que era possível fazer coisas em que se acredita sem concessões. E isso pautou a vida de todos nós.
Lembro de um diálogo que tive na época com um dono de bar:
- Mas o que você vai ganhar tocando jazz?
- Respeito.
Nossos espelhos eram diferentes.
Fui prá lá como estudante de jornalismo e aspirante a músico. Cheguei a fazer algumas aulas formais e logo caí na noite. O primeiro grupo que montei foi o Blue Up. Lógico que o nome era por causa do filme do Antonioni, mas tocava blues mesmo, de raiz. Passou por várias formações e a mais bacana foi com o Dimas - jornalista gonzo e vocalista old school que cantava muito quando estava sóbrio. Foi a semente de uma banda muito legal chamada Fahrenheit451que o velho Dimas levou por um tempo.
Aí o Guto, o Caminhoto, que era um cara que tinha largado faculdade de música em sampa prá voltar prá londrix, começou a fazer um som comigo (não sei e não me lembro por que) e logo estávamos com um grupo instrumental. A coisa foi mais ou menos assim: eu, um jacu de Avaré que tocava covers do Deep Purple e cujo grande feito guitarrístico na vida tinha sido tirar um solo inteiro do Scorpions (Rock a like Hurricane) estava tocando free jazz meu chapa! Mal sabia usar a pentatonica direito e já estava tendo que estudar escala de tons inteiros, alteradas e muita dissonância. Essa turma tinha o hábito de dar canjas nos bares com o objetivo de esvaziar o salão onde a banda ficava. Era assim: quando deixavam eles tocarem, os caras faziam questão de tocar as coisas mais out-sides possíveis para espantar os ouvidos não educados e acostumados a axés e sertanejos. Fomos os primeiros a tocar Ornette Coleman por lá. Sei não se alguém mais fez isso... Depois montamos um trio chamado O Aleph por causa do livro do Borges. Não tocavamos nada mas líamos prá caralho.
As dimensões da city ajudavam. Dava prá ir a pé a todos, literalmente todos os bares legais. Outro dia li um texto do Márcio Américo falando sobre o mesmo tema. Ele diz que por lá há muita troca de informações e todo mundo se ajuda. É verdade. A grande maioria dos livros queli foi na biblioteca de colegas que moraram comigo em repúblicas. DoPaulo Cezar Ruiz - para mim um dos melhores textos juntamente com o Mauricio de Arruda, o Bortolotto, o Rodrigo e o Losnak (Coyote) - me ensinou a gostar de Borges e Mailer. Do Mário Fragoso que me apresentou Nelson Rodrigues. As obras completas do cara no quarto ao lado. Do próprio Márcio Américo que me deu uma aula de Fante no ValentinoBar e do Bortolotto (bêbado, lógico) que falou que o Kerouac era viado por que “vivia pedindo dinheiro prá mamãe” no mesmo Valentino. Mas isso é outro causo.
Do alto de seus 133 anos, a Rua Augusta, palco de tantas histórias, vira filme: Augustas, que mostra as personagens de uma das ruas mais agitadas da noite paulistana. O diretor é Francisco César Filho
A rua Augusta não dorme. Pelo menos parte dela. Se pegarmos como referência a avenida Paulista e formos em direção aos Jardins, até seu final na rua Colômbia, encontraremos lojas populares e butiques sofisticadas que geralmente fecham as portas cedo. Esse lado descansa. Ao cair da noite, saindo da mesma Paulista em direção ao Centro, até seu início na rua Martins Fontes, a cena muda. Moradores de rua, pixadores, garotas de programa, traficantes, bêbados e viciados convivem com cinéfilos, descolados, roqueiros e modernos no chamado Baixo Augusta. Esse lado insone foi escolhido como universo para o primeiro longa do paulistano Francisco César Filho, 50, o Chiquinho. Baseado no livro A estratégia de Lilith, do jornalista e escritor Alex Antunes, Augustas conta a história de um jornalista que cai de cabeça na tríade mais conhecida do mundo pop: sexo, drogas e rockn´roll. Tudo na Augusta, em São Paulo. “É uma via muito especial. A gente queria mostrar um lado da rua que não fosse nem o trash nem o hype. Queríamos contar a história de pessoas comuns que vivem, trabalham e comem por ali”, explica Chiquinho.
Durante o tempo que as filmagens duraram, as mesas de sinuca do bar O Pescador, de seu Raimundo Cândido da Silva, 51, se transformaram em locação. “Participei do filme jogando bilhar. Colocaram as bolas na boca e aí ficou fácil”, diz seu Raimundo a respeito da atuação discreta nas gravações. Sobre a rua, diz que “até meianoite, é um público que sai do trabalho, de uma faculdade, do teatro. Da meia-noite às 6 da manhã, o nível já é mais baixo”. Silva mora na rua há 29 anos e seu bar fica aberto 24 horas por dia. “O lado das mesas fecha das 7 às 8 para limpeza”, esclarece. Foi lá que Alex, personagem vivido pelo ator e dramaturgo Mário Bortolotto, perdeu na sinuca para seu Raimundo.
Além de levar couro na mesa verde, o protagonista se envolve com muita bebedeira, paixões e até rituais xamanísticos “na rua mais louca da cidade”, diz Bortolotto, 45, em seu primeiro grande papel no cinema. “Na década de 80, vi Besame Mucho no Teatro Augusta, mas gostava de ficar vendo as meninas. Os travestis paravam os carros, pulavam em cima mesmo! À noite era quase impossível passar, aquilo tudo me atraía”. No filme, o personagem se envolve com quatro mulheres, sendo que duas são prostitutas. Uma delas é Jane (Georgina Castro), uma garota que Alex traz do interior para trabalhar na casa dele, mas ela cai na vida e o abandona. “Jane é fascinada pelas luzes, pelas vitrines, coisas que ela não pode ter, como muitas garotas de programa de verdade. Chega preparada para ganhar seu dinheiro nas ruas”, nos conta Georgina, 27, sobre a personagem. A atriz cearense está há três anos em São Paulo e para ela “a rua Augusta é como se fosse parte da minha casa. Como moro perto, vinha para o set a pé. Gosto da liberdade que existe por lá. Você pode andar vestido como quer. Ali todas as pessoas são iguais”, complementa. A prostituta Greiceany, 22, que não revela o verdadeiro nome, acompanhou as filmagens. “Nós somos pessoas como todas as outras. Também temos sonhos. Eu mesma estou fazendo um curso de instrumentação cirúrgica e logo, logo, bye, bye street”, diz a loura. Mas complementa que gosta da rua e de “uma boa sacanagem”. Mas de onde vem essa atração comum a todos que freqüentam a Augusta?
Tudo começou quando o Conjunto Nacional passou a abrigar a badalada Confeitaria Fasano no final dos anos 1950. Lojas de marca e bons restaurantes atraíram a elite. Atores e intelectuais chegaram com a fama e o local ganhou glamour. Era o centro nervoso de uma São Paulo elegante. Nesse período, abrigou inúmeras garçonieres, onde políticos e empresários davam uma escapadela para encontros fortuitos, como se dizia. Surgia aí uma grande vocação.
Durante a década de 60 foi o paraíso dos playboys que cortavam seu asfalto a 120 por hora, como na famosa música de Hervé Cordovil. A segunda geração de freqüentadores chegou a promover rachas com até 15 carros disputando palmo a palmo suas 18 travessas. Os mauricinhos vintages também iam atrás da azaração de um broto legal. A pegação continuava rolando solta. No final dos anos 1980, o boom dos shoppings centers afastou o comércio considerado nobre e o lugar atraiu putas e travestis. Aí pegou de vez. Virou sinônimo de boca do lixo e do sexo fácil, sendo, inclusive, responsável pela primeira boate gay da cidade.
O cenário atual começou nos anos 1990, quando a abertura de salas de cinema e uma programação cultural acima da média aproximaram outros públicos. Hoje, uma simples passada no circuito Ibotirama-Charm, você fica sabendo que a banda Mono4 tocará na Fun House, que o Out’s promoverá uma batalha de DJs, que todas as quintas tem banda no Rockfellas e que o Marinho do Pavilhão Nove estará no On the Rocks. Além de ser chamado durante todo o tempo pelos puxadores que convidam para “uma cervejinha com as meninas”. Bruno Morais, 28, cantor e compositor acha que “a rua perdeu o estigma negativo que tinha. Você vê hippie, intelectual, jornalista, mendigo. É um catalisador de loucuras”.
As filmagens não foram fáceis. Chiquinho diz que “um dia tivemos que fazer algumas cenas em frente a uns puteiros. Apesar de estarmos com todas as autorizações legais para isso, notamos que as pessoas da área começaram a ficar incomodadas. O pessoal dizia que estávamos atrapalhando, e muito, o movimento naquela noite. Uma hora, fomos intimados a parar de filmar. Depois de três dias de negociações, ficou combinado que eles cederiam um determinado dia da semana para finalizarmos. Lá existem leis próprias muito rígidas e muito respeitadas”. Os roqueiros do Out’s – há cinco anos o espaço das bandas alternativas na cidade – também encontraram dificuldade com as garotas de programa no começo. Valentin Vandermer, 34, proprietário da casa, explica que “as meninas faziam ponto aqui na porta, mas como a casa começou a encher, elas subiram um pouco. Percebi que começaram a colar com um visual mais roqueiro, pegando carona no nosso público e tentando arrumar novos clientes”.
Rosana diz ter 25 anos e garante que o nome e a idade são verdadeiros. “Só não digo o sobrenome por causa da minha família”, adverte. Para ela, a rua já foi melhor para quem faz programa. “Antigamente a gente era mais respeitada. Hoje a garotada que aparece para a balada não entende nosso trabalho e acaba afastando os homens mais maduros que são quem mais nos procuram. Já vi de tudo em sete anos de Augusta”, garante.
Cercado por boates e prostíbulos por todos os lados, o clube Vegas fica no olho do furacão. Com público freqüentador das classes A e B, seu proprietário Facundo Guerra Riveiro, 34, acha que “a experiência de vir para cá não é agradável para quem não tem boemia na veia. A avenida Paulista é o cartão-postal, mas a Augusta é a rua que representa a diversidade do paulistano, a contradição”. O filme agora se encontra em fase de edição e montagem. As primeiras cópias devem ficar prontas em novembro. “Depois disso, começa a parte mais amarga das negociações que é a distribuição e a exibição. Ainda é complicado para um filme nacional conseguir bons espaços, mas o que eu quero mesmo é passar o filme numa das salas na rua Augusta”, finaliza o diretor.